«aquela magia da música que vem do éter, é um hábito que se está extinguir (…) a rádio enquanto escuta caseira é um hábito que faliu e que nos fugiu, e não há maneira de voltar». António Sérgio in "Suplemento DN" de 08 de Julho de 2005

terça-feira, 18 de julho de 2006

Há 70 anos: o papel da rádio na Guerra Civil Espanhola

Passam hoje 70 anos que se iniciou o mais sangrento conflito da Península Ibérica. A rádio portuguesa teve um papel activo no desenrolar dos acontecimentos, tendo Franco um forte aliado na figura de Jorge Botelho Moniz - o presidente do Rádio Clube Português.
Os diários do Porto do dia 17 de Julho de 1936, apresentavam uma entrevista com o General José Sanjurjo, em que o militar declarara ignorar a origem do «boato fantasioso» que o dava como prestes a entrar em Espanha para chefiar um movimento revolucionário tendente a derrubar o governo da Frente Popular, chefiado por Casares Quiroga. Apesar das declarações do General exilado, no dia seguinte - 18 de Julho de 1936 - por todo o Marrocos espanhol dá-se um levantamento militar chefiado por Francisco Franco. José Sanjurjo morreu, poucos dias depois, num acidente de aviação em Cascais quando regressava a Espanha para liderar os revoltosos.
O estado português perante a cena internacional mantinha-se neutral - pois era pressionado pelas potências europeias nesse sentido - mas essa neutralidade era apenas aparente - internamente nada fazia para impedir os apoios portugueses aos nacionalistas chefiados por Franco e chegava, inclusive, a incentivá-los.
Salazar rompe as relações com o governo de Madrid a 23 de Outubro de 1936, mas só a 28 de Abril de 1938 é que o governo insurreccional seria reconhecido. Se bem que a Emissora Nacional(E.N.) não apoiasse directamente os nacionalistas espanhóis, as noticias por ela veiculadas davam a conhecer apenas uma parte do conflito - a que interessava ao governo português - e sempre em contra-informação das noticias veiculadas pelas rádios espanholas republicanas. As outras emissoras portuguesas, por força de uma censura férrea, tinham de seguir a mesma orientação.
Com o desenrolar do conflito, o Major Jorge Botelho Moniz, um dos militares da revolução de 28 de Maio, presidente do Rádio Clube Português e amigo de Oliveira Salazar, decide levar avante a criação de um corpo de milícias portuguesas - os Viriatos - para intervir ao lado dos Nacionalistas. Salazar sabendo disto deixou simplesmente que a ideia prosseguisse, mas descartou-se de responsabilidades. O apelo à mobilização é feito a 28 de Agosto de 1936, no Campo Pequeno, em Lisboa, num comício anticomunista. Nesse comício o Major Botelho Moniz discursa perante milhares de pessoas e afirma: «Vai começar a guerra santa, a guerra de todos os instantes. Vai começar a cruzada heróica para a qual chamamos os portugueses(...). Nós, nacionalistas, somos legião e somos portugueses. Constituamos a "Legião Portuguesa", a legião onde só entram "portugueses", mas que fica aberta a todos os portugueses, leais, disciplinados, dignos e honrados que aceitam como lema "pela Família, pela Pátria, pela Civilização Lusitana"». O Rádio Clube Português foi durante o conflito civil espanhol a voz mais activa, embora também a Rádio Luso, que era financiada pelo regime Nazi da Alemanha, e a Invicta Rádio, que estava ligada ao regime fascista português, fossem difusoras da propaganda de Franco em Lisboa e no Porto.
No Porto o Comandante Henrique Galvão dava palestras, aos microfones da Invicta Rádio, chamando a atenção dos ouvintes para o perigo que vinha de Espanha pela mão dos republicanos que, segundo ele, ameaçavam a soberania nacional. Muitas outras palestras destinadas a Espanha foram proferidas em Castelhano. No entanto, foi através do Rádio Clube Português que melhor se fazia sentir o apoio Luso aos falangistas. A organização de vários comboios de abastecimentos, por esta estação emissora, e a propaganda pró-franquista foram uma ajuda preciosa aos revoltosos. Os espanhóis tinham emissões desde o R.C.P. em castelhano, feitas pela voz de Marisabel de La Torre de Colomina, que se tornou o símbolo emblemático do apoio daquela emissora aos rebeldes franquistas. A revista "Rádio semanal", uma publicação da Emissora Nacional, dedica a Marisabel a primeira página do número de Setembro e uma reportagem alargada sobre o R.C.P. dando conta da influência que esta locutora espanhola exercia, tanto em Espanha como em Portugal. As emissões para Espanha eram regulares e o indicativo que se fazia ouvir era "CT1 GL - R.C.P. - Parede - Lisboa - Portugal".
Devido a este conflito e à tomada de partido pelo R.C.P., foi criado em Portugal o primeiro serviço noticioso regular. O R.C.P. tinha vários postos de escuta, para ouvir as emissões provenientes de Espanha e das outras estações emissoras da Europa que noticiavam o conflito, toda esta informação era filtrada e retransmitida pelo R.C.P.. Como consequência desta tomada de partido, às 23 horas do dia 20 de Janeiro 1937 o emissor de 5 kW do R.C.P. sofre um atentado com uma bomba relógio. Não houve danos pessoais mas os estragos foram de vulto, passadas vinte e quatro horas as emissões são retomadas.
Se o Rádio Clube Português era uma voz para Espanha, a Emissora Nacional era uma voz para o povo português. As palestras proferidas aos microfones da E.N. sobre o conflito em Espanha, eram contra o perigo "vermelho" espanhol e a favor dos falangistas, que se batiam pela defesa dos valores da "civilização cristã ocidental", e pela "defesa da integridade nacional, ameaçada pelo avanço comunista na Península Ibérica".
A Rádio Renascença começou a emitir experimentalmente em 1936, e nesse ano foi convidada pela Comissão Internacional Católica de Radiodifusão a participar, juntamente com outras emissoras católicas da Europa, numa audiência papal onde se discutiria, entre outros assuntos, o avanço do comunismo, que era visto pela Igreja como um inimigo da fé. Com as dificuldades de comunicação com o resto da Europa, por causa do conflito espanhol, e também porque os recursos financeiros da Rádio Renascença eram parcos, nenhum representante da emissora católica esteve na reunião.
A guerra civil espanhola terminou oficialmente a 1 de Abril de 1939, assegurando a subida ao poder do ditador Francisco Franco. Foram três anos de conflito que se saldou em centenas de milhares de mortos (há historiadores que falam em mais de um milhão), na sua maior parte civis, e outras centenas de milhares de refugiados - só no campo de Argeles estiveram meio milhão.Na praia onde esteve instalado o campo de concentração de Argeles, França, uma placa comemorativa reza: «A todos los españoles que lucharon por la libertad. Hombre libre, recuerda».

5 comentários:

Anónimo disse...

Este texto está muito longo. Há que adaptar, caro sr. Jorge, as caracteristicas da escrita electrónica ao meio (não faz sentido escrever um texto do século XX num meio do século XXI)

Anónimo disse...

É um comentário duro, mas concordo, está muito longo...
RC

Anónimo disse...

Não ligue ao que lhe disseram os postantes anteriores. O seu texto é um documento importante e não resumível. Maldita geração do fast-food e do fast-tudo!!!
Parabéns!

T.Botelho Moniz disse...

Sou filha do Major Botelho Moniz. O seu texto, ao contrário dos postantes anteriores , geração do "fast-tudo" como disse o meu antecessor, tinha, a meu ver, e porque conheço a história, "pano para mangas"... Mas quem quer saber?

Jorge Guimarães Silva disse...

Exm.ª Sr.ª T. Botelho Moniz, eu quero saber. Obrigado pelo seu comentário.