«aquela magia da música que vem do éter, é um hábito que se está extinguir (…) a rádio enquanto escuta caseira é um hábito que faliu e que nos fugiu, e não há maneira de voltar». António Sérgio in "Suplemento DN" de 08 de Julho de 2005

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

O 2006 radiofónico

O ano que ontem terminou registou várias alterações no panorama radiofónico português. Infelizmente, muitas foram negativas.
Em Janeiro é dada a conhecer uma proposta de alteração da Lei da Rádio, que obriga as estações de radiodifusão a passar entre 25% e 40% de música portuguesa. Foi uma transformação que motivou protestos de artistas e de emissoras, já que pouco ou nada vinha alterar o panorama radiofónico português. Mas há políticos que têm de mostrar serviço, mesmo que não percebam nada do assunto.
Ainda em Janeiro, viveu-se outros tempos de rádio. A nostalgia dos anos oitenta faz regressar o programa Febre de Sábado de Manhã. Júlio Isidro conseguiu juntar bandas de sucesso dos anos 80, e fez reviver, por algumas horas, o programa da Onda Média da RDP-Rádio Comercial. Os concertos foram televisionados, mostrando que a rádio de outros tempos – não tão distantes assim – era dinâmica e movia milhares de ouvintes. Uma lição para os operadores actuais.
O mês de Fevereiro vê ser criada a Entidade Reguladora da Comunicação (ERC), que viria a substituir a Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS). As suas decisões foram criticadas por jornais, rádios, televisões e pelos blogues. A ERC mostrou em pouco tempo que, afinal, mais valia manter a AACS, porque a ERC não acrescentou nada, pelo contrário.
A RDP comemora os 250 anos de Mozart, e cria uma rádio online dedicada exclusivamente ao famoso compositor.
O Rádio Clube Português (RCP), promessa dos bons velhos tempos, em que o RCP era a melhor rádio portuguesa, revela-se uma desilusão nas audiências e altera o seu formato, passando a chamar-se Rádio Clube. A desilusão continua e, em finais do ano, novo formato é prometido para 2007. No entanto, o director do RCP é ambíguo e diz, repetidamente, em vários órgãos de comunicação social, que o Rádio Clube vai ser uma rádio generalista com muita informação, sem adiantar mais pormenores. Uma certeza apenas: a sigla RCP vai ser extinta. Ou vai ser um sucesso assombroso ou vai ser mais do mesmo e nem sequer vai conseguir desiludir.
Em Março, a RDP decide criar o provedor do ouvinte. A escolhe recai num homem que conheçe bem o meio: José Nuno Martins. Mais um passo positivo da rádio de serviço público e que contribui para a credibilização do meio. As emissoras privadas, que não gostam de críticas, dizem não haver necessidade de criarem um provedor.
A rádio regressa à TV Cabo, que insere no seu pacote digital algumas estações, algumas delas locais.
Abril foi o mês que, em 1974, abriu as portas da liberdade aos portugueses, tendo a rádio sido o elemento catalizador. Neste mês mais um golpe acontece na rádio e na cultura: o museu da rádio encerra portas. Um dos melhores museus do género do mundo, com uma invejável colecção de receptores radiofónicos.
As audiências do primeiro trimestre de 2006, da Marktest, dão números desapontantes: a rádio portuguesa perdeu 307 000 ouvintes. Muitas causas podem ser atribuídas a esta queda nas audiências, mas a principal é, de certeza, o marasmo radiofónico em que o país se encontra, onde prevalecem emissoras erm que o elemento humano foi substituído por um computador ou então as emissões são preenchidas com listas de difusão de gosto duvidoso.
A Internet é um meio cada vez mais utilizado pelas estações e, em Maio, a RDP coloca à disposição dos ouvintes Podcasts, permitindo que interessados escutem programas muito depois de terem sido emitidos. Também a Media Capital Rádios (MCR) criou uma nova rádio online temática - a Rádio Portugal – para acompanhar o campeonato europeu de futebol de sub 21.
Depois dos meses de veraneio, em que a actividade radiofónica abranda, é chegado o tempo de novidades os meses de Setembro e Outubro trazem sonoridades diferentes à Antena 2 e à Rádio Renascença.
Em Novembro as audiências do terceiro trimestre de 2006, da Marktest, mostram que a rádio recuperou alguns ouvintes, no entanto não foram os mais de 300 000 que perdeu no primeiro trimestre.
Em Dezembro, a decisão de Rádio Renascença de tomar posição a favor do “não” no referendo sobre o aborto fez correr muita tinta. Mas só os mais distraídos é que se surpreenderam com esta decisão.
Um excelente ano de 2007.

4 comentários:

Daniel disse...

Permita-me uma pequena correcção:
- A Rádio Portugal não foi criada apenas com o intuito de transmitir o campeonato Europeu de sub-21, mas, para além deste, o campeonato do Mundo de futebol.

Bom Ano 2007!

t_verde disse...

Vou intrometer-me onde não sou chamado e acrescentar que é com pena que vejo que a Rádio Mais, emitindo da Amadora, foi substituída pela Kiss FM - Lisboa. Mais uma troca de uma rádio local por uma emissora generalista, com playlist e emissão controlada por Computador. Uma rádio que é apenas mais uma no maranhal e não tras qualquer valor acrescentado ao panorama radiofónico.

Jorge Guimarães Silva disse...

t_verde, intrometa-se sempre que quiser.

Denudado disse...

Quero lembrar que a chamada "Rádio Portugal" não foi só uma rádio online, pois era transmitida em onda média também. A sua designação criou aliás um conflito entre a MCR e a RDP, pois ela sempre foi usada como designação alternativa da RDP Internacional, que se identifica habitualmente como «RDP Internacional, Rádio Portugal».

Acabada a "Rádio Portugal", voltou à onda média a "Rádio Nacional" -- em 1035 kHz (Benavente) e 783 kHz (Afurada, com péssima qualidade de som) -- que é completamente computorizada. Só transmite música portuguesa; deve ser esta a razão do nome.